Evidente fenômeno na esteira da internet, uma considerável massa de curiosos, abnegados e/ou inconformados cidadãos resolveram ir atrás, por eles próprios, de uma nova bibliografia que pudesse suprir a inefável necessidade de conhecimento do ser humano, a qual estivera por décadas fora de seu alcance imediato. Estou falando, obviamente, de clássicos da literatura e da filosofia mundial que não vinham sendo devidamente divulgados pelas Escolas e Academias de plantão, tampouco por empresas editoriais e midiáticas movidas por interesses escusos.
Independente de intenções desinteresseiras ou se por descobrimento vocacional, duas obras se destacam nessa iniciação intelectual em direção a um novo mundo que se vislumbra; são elas “A Vida Intelectual” do teólogo dominicano francês Antonin-Gilbert Sertillanges e “A História da Literatura Ocidental” do ensaísta e crítico literário austríaco Otto Maria Carpeaux (supostamente o único intelectual fugitivo do nazismo que veio parar no Brasil ao invés dos E.U.A.). No meu caso, optei pela primeira obra, já que as aulas do C.O.F. ministradas pelo professor autodidata Olavo de Carvalho já estavam disponíveis no Youtube e davam conta da maior parte da lista elaborada na obra de Carpeaux.
De Sertillanges retive importantes considerações, como a primeira regra: “Lede pouco! (…) Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai a feira. (…) Escolhei o melhor que puderdes. Assim, há de chegar a hora de realizar: Escrevei e publicai, desde que juízes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar. O estilo forma-se escrevendo, e só é verdadeiro quando corresponde a uma necessidade do pensamento e quando se mantém em contato íntimo com as coisas. Na busca por uma personalidade intelectual, é preciso ser sempre mais do que é: o filósofo deve ser um pouco poeta; o poeta, um pouco filósofo; o artista deve ser poeta e filósofo de vez em quando”.
Imbuído dessa disposição, cada qual tem uma obra a realizar na vida. É preciso aplicar-se a ela com coragem e confiar à divina providência o que lhe reserva. Também segundo Sertillanges, primeiramente deve-se descartar a especialidade, na medida em que se trata de formar um homem culto; mas em algum momento, há de se apelar a características singulares, na medida que se impõe um rendimento útil do trabalho intelectual. A alta cultura exige um campo mínimo de conhecimento, sem o qual não é possível a passagem para as esferas mais elevadas e profundas da consciência. Voltando à minha experiência, eram tantos os campos de interesse dentro da Filosofia, História e Teologia, que esse trabalho de seleção de autores e obras tornou-se praticamente uma arte.
Na busca pelo “intelectual perfeito”, haveria algum com envergadura em variados campos do conhecimento humano que ainda não tenha o devido reconhecimento dos agentes culturais no Ocidente e sobretudo no Brasil? A resposta é certamente sim! Seu nome é Erich Hermann Wilhelm Voegelin, ou simplesmente Eric Voegelin. Nascido em Colônia, Alemanha, em 1901; mudou-se para Viena com sua família aos nove anos. Este foi, para este modesto escriba, o maior filósofo do Século XX.
Viena ainda era, sob a dinastia Habsburgo, o último estandarte cultural da velha Europa imperial. No ensino fundamental e médio, Voegelin estudou oito anos de latim, seis de inglês, dois de italiano, além de conhecimento elementar do francês incentivado pelos pais. Leu o Kapital de Marx logo antes da Universidade, quando foi marxista de agosto a novembro de 1918.
Cursou graduação e doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Viena de 1919 a 1922. Apesar da dissolução do império austro-húngaro no fim da primeira guerra, o ambiente acadêmico ainda era cosmopolita. Hans Kelsen foi seu professor e artíficie da Constituição Austríaca de 1920 com sua Teoria Pura do Direito; Ludwig Von Mises promovia seminários na Faculdade de Economia e os herdeiros de Freud estavam em pleno exercício das teorias psicanalíticas. No epicentro de toda essa efervescência acadêmica, Voegelin escolheu o doutorado em ciência política, parte pelos princípios e parte pela menor duração do curso. Foram nos três anos do doutorado que ele adquiriu conhecimento dos filósofos clássicos (Platão e Aristóteles) e dos idealistas alemães Fichte, Hegel e Schelling;
A mais importante influência de Voegelin nesse período foi Max Weber, principalmente pela atitude anti-ideológica do sociológo perante a Ciência e do seu método em estudos civilizacionais comparativos. “Ideologias não são Ciência, e ideais não são substitutivos para ética”. Já a relação de Voegelin com a Teoria Pura do Direito foi sendo formada gradativamente. A ideologia imposta era a metodologia neokantiana: “Como na terminologia convencional da época, o campo que Kelsen representava como professor era a teoria política, e como a metologia neokantiana circunscrevia pelo seu método a lógica do sistema jurídico, a teoria política teve que se tornar teoria do direito, e tudo que surgiu além da teoria do direito não poderia mais fazer parte da teoria política.” Tudo o que não se enquadrasse nas categorias de normas lógicas não poderia mais ser considerado ciência.
Refugiado político nos Estados Unidos a partir de 1938, lecionou teoria política norte americana durante duas décadas. Mas nada se compara à abrangência das reflexões filosóficas de Voegelin, as quais fizeram dele um dos pilares intelectuais do século XX:
Na Filosofia Clássica, sua reflexão perpassa o problema da linguagem, que diversas vezes na história foi degradada e corrompida em grau tão elevado que não mais pôde ser usada para expressar a verdade existencial. Deste modo, no presente, estamos em face do problema de livrar-nos de uma pilha de dogmas – teológicos, metafísicos e ideológicos – e resgatar as experiências originais de tensão do homem em direção ao fundamento divino de sua existência. Para isso, a exegese original da consciência não deveria ser um dado a ser descrito por meio de proposições, mas um processo da psique em si que tem de encontrar seus símbolos de linguagem enquanto caminha.
Na Filosofia da História construiu o conceito de historiogênesis: “O simbolismo permaneceu tão abaixo do horizonte de interesse teorético que não recebeu sequer um nome. Portanto, como primeiro passo para sua identificação, proponho o nome historiogênesis. O nome foi escolhido em consideração ao exemplo israelita do simbolismo, em que a história pragmática é extrapolada até o sentido bíblico do Gênesis. Se a historiogênesis é uma especulação da origem da sociedade, ela tem de ser considerada um membro da classe a que também pertencem a teogonia, a antropogonia e a cosmogonia. Os quatro complexos em seu agregado compreendem todo o campo do ser; e os quatro simbolismos enumerados – teogônico, antropogônico, cosmogônico e historiogenético – formam um agregado correspondente de especulação que cobre todo o campo. Sem consideração a sua função dentro do agregado das quatro variedades mítico-especulativas, a historiogênesis tem de ser considerada, em segundo lugar, como um fenômeno independente, resultante dos esforços combinados da historiografia, da mitopoética e da especulação racional. Portanto, a historiogênesis deve ser entendida como o equivalente mítico da historiografia critica.
A Filosofia da Consciência desenvolvida pelo gênio partiu do seu sentimento de que na experiência humana não há nenhuma corrente de consciência, exceto na experiência de dirigir-se para um processo específico de percepção simples e selecionada. “Focalizar o ponto evanescente não leva a uma melhor compreensão do problema da consciência e do tempo como um todo, mas apenas a uma compreensão das raízes da consciência na esfera do corpo.” Portanto, limitar o problema da consciência ao fluxo e à sua geração é insustentável, quando menos, por sua incompatibilidade com os fenômenos do sono, sonhos e processos psíquicos subconscientes. O “fluxo” seria então um fenômeno de limite, sendo que a consciência como um todo não flui; parecendo que não há necessidade de procurar a geração de um fluxo de consciência:
“É duvidoso se a consciência tem a forma do Eu, ou se o Eu não é, ao contrário, um fenômeno dentro da consciência”.
Na Filosofia Política de Voegelin, uma nova ciência da política teria que tratar do problema da ordem de toda a existência do homem e, no contexto dessa nova investigação, não há proposições fundamentais dessa ciência porque não há proposições. Ao contrário, as “proposições” de ciência política são iluminações de senso comum nos modos corretos de ação que dizem respeito à existência do homem na sociedade – variando de iluminações concernentes à organização do governo, a iluminações das exigências de políticas doméstica e estrangeira, política financeira e militar, até as tomadas de decisão em casos concretos.
“O senso comum é um hábito civilizacional que pressupõe experiência noética, sem o homem deste hábito possuir ele mesmo conhecimento diferenciado da noese. O homo politicus civilizado não precisa ser filósofo, mas tem de ter senso comum. Assim poderíamos dizer que a Política de Aristóteles, uma vez que não lida com o logos da própria consciência, é um estudo de senso comum de situações típicas que surgem na sociedade e na história quando o homem tenta ordenar sua existência inteira. Não sem razão Aristóteles identificou episteme politike com a virtude da phronesis.”
Este vasto repertório literário de Voegelin serve como um testemunho de sua profunda erudição e capacidade de filosofar. Com uma coleção imponente de livros e artigos, ele abordou questões existenciais, políticas e sociais determinantes para compreensão do nosso tempo. E seu legado também teve grande influência na obra do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, desde a “religião do império” base fundamental de O Jardim das Aflições, até a teoria das 5 camadas do Eu no seu derradeiro Consciência de Imortalidade.
Respostas de 4
Pelo visto ele era genial!
Excelente texto.
O texto me despertou um interesse enorme em conhecer a obra de Voegelin.
Excelente texto! Parabéns, meu amigo!